• falamoitinho

EU QUAXI MÓRRO

De Magali Ribeiro


Baseado em fatos perigosamente reais


Este conto está incrivel, divertido, nos garante risos soltos, combinados com algumas imagens da praia de Carne de Vaca. Você vai ficar com água na boca, e só vai sossegar no dia que abarcar, neste pedaço de paraiso, como narrou, a poeta Magali Ribeiro. Segue o conto:


EU QUAXI MÓRRO

Era uma injustiça um lugar tão lindo ter um nome tão vulgar, e que nada dizia de sua beleza. Mas o nome aguçava a curiosidade e nos chamava a especular sobre o local e o porquê dele se chamar assim. Na verdade, ele era uma ponta de paraíso, uma surpresa para o olhar. Não adiantava já tê-lo visto quantas vezes fosse, sua visão causava sempre uma surpresa festiva para os olhos, e algo de: — Não acredito! Para a boca, que sempre permanecia aberta por alguns longos segundos, quando nos deparávamos com aquela paisagem. Então, vamos explicar logo do que se tratava, para não fazer muito mistério. Contasse que, há muitos anos atrás, o mar forçou a passagem por entre a vegetação do mangue que circundava a praia de Carne de Vaca. Uma bela e natural praia do município de Goiana Pernambuco. Essa era a parte do mangue que separava as praias de Carne de Vaca e Pontas de Pedra, também município de Goiana. Eram cerca de três quilômetros de vegetação densa e cheia de tocos e raízes, além do lamaçal próprio dos manguezais, que são estuários de caranguejos, ostras, mariscos e siris. O mangue em si, já é bonito, porém, muito desafiador.


Mas, a natureza resolveu nos presentear com um dos seus mais deslumbrantes caprichos, levando o mar a entrar no mangue, em um determinado trecho de sua extensão, e força-lo a recuar, criando um oásis de praia cristalina, de um verde tão intenso que se confundia com o azul, ou era mesmo uma cor para cada dia, que a natureza emprestava à suas águas, só para nos confundir. Em resumo, o que aconteceu foi que o mar arrombou a mangue e fez dentro dele uma pequena morada, uma belíssima lagoa a qual só podia ser acessada, quando a maré estava baixa. Caso contrário, as ondas nos jogavam em direção aos tocos e as galhas do manguezal causando muitas feridas e cortes nos braços, nas pernas e nos pés que, se atolavam fundo na lama e por vezes pisavam em tocos, raízes e ostras enterradas ali, como tesouros da pirata natureza. Por isso, o lugar foi batizado de ARROMBADO, e a regra era clara! Só se podia ir desfrutar de sua beleza com a maré secando, para dar tempo de tomar banho em suas águas límpidas, brincar em suas lindas margens e volta logo que o mar começasse a encher, caso contrário ficava muito perigoso o regresso. Mesmo para pessoas adultas e pescadores experimentados. Eles costumavam dizer: —Com o mar alto não se brinca, pois água não tem cabelo! Vocês devem estar se perguntando, por que eu estou fazendo todo esse rodeio e descrevendo tão minuciosamente este lugar? Ficaram curiosos? Pois vou lhes contar uma grande aventura que passamos eu e dois irmãos, quando éramos crianças, numa escadinha de idade que era: o mais novo desse grupo com oito anos, eu com nove e o mais velho com dez. Nossa família estava acostumada a passar o verão nessa praia, porque ela era muito natural e meus pais conheciam praticamente todas as pessoas da comunidade, os primeiros verões ficávamos hospedados de favor na casa de alguns desses amigos dos meus pais.



As casas eram modestas, feitas de taipa e cobertas de palhas de coqueiro trançadas, mas nós ficávamos tão felizes que não cabia em nós tanto contentamento, (para vocês mais novos, contentamento quer dizer alegria) eu poderia escrever a palavra alegria, mas na época em que era criança, esse era o nome que se dava, quando estávamos felizes, então quero ser fiel as minhas lembranças. Minha família era enorme e todo ano crescia mais, e meu pai se viu forçado a alugar uma dessas modestas casas só para nós, pois já estávamos em dez filhos, meu pai, minha mãe e algumas primas que iam no intuito de ajudar a cuidar da criançada. No quesito cuidar, os irmãos mais velhos eram responsabilizados por garantir a segurança dos mais novos. Isso se chamava: tomar de conta, o que incluía, vigiar, aconselhar, dar banho, arrumar, pentear os cabelos e brincar com eles. Sim, dez filhos! Não se assustem, pois minha mãe teve vinte gravidez, mas apenas dez filhos se criaram, os outros faleceram, logo após o parto, alguns foram natimortos, e assim, era mesmo necessário que todos auxiliassem nos cuidados uns com os outros. Na época dessa aventura, tínhamos minha irmã mais velha que era uma moça muito bonita, quatro rapazes, uma irmã adolescente, também muito bela e muito expansiva, nosso trio que era composto do meu irmão imediatamente mais velho, eu e meu irmão imediatamente mais novo, depois tinha minha irmã caçula que era ainda bem pequena, acredito que contava dois anos apenas. Geralmente uma ou duas vezes por semana, minha irmã mais velha organizava um piquenique para o Arrombado, ele ficava relativamente distante de nossa casa, mas ninguém se incomodava de caminhar carregando as cestas com os lanches, as bolsas com toalhas ou um irmão mais novo pela mão, ou no braço quando ele cansava. Observando rigorosamente a regra da maré baixa, caminhávamos um bom pedaço pela beira da praia e depois atravessávamos a parte do mangue que era a mais difícil e perigosa. Mas a paisagem que nos aguardava, pagava qualquer sacrifico. O verde estonteante das águas da lagoa, emoldurado pelos múltiplos verdes até chegar ao marrom das folhagens da vegetação do manguezal que se debruçava sobre as águas e dava aos olhos uma visão de aquarela impressionista ao estilo de Monet, acordava os sentidos e renovava as forças e as alegrias. Tomávamos mil mergulhos, fazíamos castelos intermináveis na areia, comíamos tudo que havíamos levado e esperávamos o toque de recolher de minha irmã, que era para ser cumprido sem uma única queixa! Quando ela gritava que a maré estava enchendo, todos se apressavam em recolher as coisas pegar nas mãos dos mais novos e bater em retirada.


No caminho, depois que passávamos o mangue, fazíamos uma parada para tomar banho na praia, brincar e retirar a lama das pernas e das roupas. Era sempre um dia de sonhos, tínhamos assunto para a conversa da calçada da igreja por mais dois ou três dias, ou até irmos novamente. Eu poderia parar essa narrativa aqui, pois sei que já dei conta de descrever a beleza do lugar e a alegria que invadia nossos corações a cada ida até lá. Mas, tenho uma missão maior, que é, a de deixar registradas as nossas memórias de infância e dar a conhecer, um pouco daquilo que viveu nossa geração. Então vamos lá!! Era um lindo dia de sol, como lindos eram todos aqueles dias vividos na praia de Carne de Vaca. O vilarejo tinha esse nome porque na maré baixa a praia recua muito, coisa de um quilometro mar a dentro, e ficava impossível de tomar banho nela. Contava-se, que nessas ocasiões as vacas entravam na praia para comer os sargaços, o mar enchia e elas acabavam se afogando. Não sabemos se esta é uma história real, ou criação do poderoso imaginário popular, para explicar a origem de um nome tão inusitado. O fato é que, nesse lindo dia de verão, o mar estava muito baixo e a água bem distante para nós crianças. Como sempre acontecia, eu e meus dois irmãos (componentes do famoso trio ventania, como éramos chamados), seguimos os mais velhos até o centro do vilarejo para que eles tomassem conta de nós, enquanto brincávamos ou tomávamos banho. Essa era a ordem de minha irmã mais velha, a quem todos obedeciam cegamente. Porém, como sempre ocorria, os mais velhos foram convidados a jogar vôlei na beira mar e nós ficamos sem qualquer supervisão. Sem condições de banho e entediados resolvemos fazer uma visita ao nosso paraíso. Decidimos ir ao Arrombado, sozinhos mesmo como estávamos. Primeiro olhamos a maré e calculamos que ela estava suficientemente baixa, para dar tempo de irmos e voltarmos em segurança. Claro que o calculo estava corrompido pela enorme vontade de fazer essa aventura, mas o mar estava, de fato, muto baixo. O detalhe mais grave, era que estávamos apenas em três e éramos muito pequenos, para enfrentar todos os percalços que se nos apresentaria na trajetória de ida, e mais ainda de volta. No entanto, isso não entrou sequer em cogitação, na hora de decidir e planejar nossa ida. Já era cerca de nove horas da manhã e o sol estava bem alto e aquecido. Naquela época nem se falava de protetor solar, só de bronzeadores, que deixavam a pele morena e os pelos dourados. Mas as crianças não se preocupavam com isso. Só as mocinhas e os rapazes mais vaidosos. Lembro que conversamos rapidamente e combinamos de sair por trás da igreja para os rapazes não nos ver. Meu irmão mais novo disse que estava com medo e pediu que cuidássemos dele, falando com voz manhosa: - Eu ainda sou uma “quinhança” combinamos também, que nunca cotaríamos a ninguém o que tínhamos feito, ninguém nunca saberia que fomos sozinhos ao Arrombado. Tudo acertado, rumamos para a igreja católica que ficava próxima a beira mar, de lá, sem que ninguém percebesse, tomamos o nosso destino. O coração estava aos pulos, misto de medo e curiosidade, arrependimento e autoafirmação. O mar estava baixo e conseguimos vencer o trajeto até o mangue com relativa facilidade. Também não foi muito difícil avançar na parte do mangue, com a ausência das ondas e a lama endurecida pelo sol, topamos em algumas raízes aqui e acolá, mas nada que nos causasse preocupação. Quando ocorria algo mais sério meu irmão caçula gritava logo: — Cuida de mim que sou "quinhança"! E nós rapidamente o acudíamos para que não desistisse da aventura e estragasse todo o nosso esforço. Ao terminar o sofrido pedaço de mangue, se descortinou a nossa frente uma paisagem tão linda, que nada mais importava. A beleza limpou nossas mentes de qualquer dor e varreu a lembrança de qualquer esforço. Corremos e pulamos nas águas límpidas do Arrombado dezenas e dezenas de vezes, não havia naquele lugar, uma viva alma, a não ser nós três.


Corremos atrás das Marias Farinhas e dos Chiés, embolamos na areia e boiamos esquecidos da vida naquele hiato de tempo, composto apenas por mar, mangue e céu. Até que a correnteza nos trouxe uma água viva e nós pulamos pra fora da lagoa. Então, observamos que ela flutuava muito rápido. Meu irmão fez cara de preocupado e disse: - Vamos indo, o mar está enchendo! Ninguém respondeu nada, ninguém disse nada. Apenas o seguimos em direção ao mangue.

Já estávamos cansados e mais lentos, o sol ia bem alto e por isso demoramos mais para atingir a parte alagada, aonde realmente residia o perigo de sermos jogados pelas ondas sobre os tocos, ou atolarmos na lama e não conseguirmos sair, apenas com as nossas forças de criança. Já estávamos no meio da travessia e sentíamos o clima de seriedade e angustia que cada um vivia, ninguém dizia nada. Só meu irmão mais novo repetia o tempo todo: timo trecho e caímos, sujos, cortados e extenuados na límpida areia branca que tranquila nos aguardava, como se nada houvesse acontecido. Cde mim que eu sô uma "quinhança"! Eu e meu irmão mais velho, o segurávamos como a um troféu, nada desse mundo faria com que largássemos a sua mão. Ele era bem gordinho e por isso pesava arrastá-lo da lama, quando se atolava. As ondas estavam cada vez mais rápidas e com intervalos mais curtos para invadir o mangue, tínhamos pouco tempo entre uma e outra para caminhar entre a lama e os tocos, mas estávamos vencendo bravamente, até que veio uma muito forte e nos soltou uns dos outros. Esse foi, sem sombra de dúvidas, o momento mais apavorante de minha infância. O guardo nos olhos até hoje. Até hoje consigo sentir o cheiro de maresia misturado com o do sangue que começou a sair da perna do meu irmão mais novo que se cortou fundo ao ser lançado pela onda sobre um toco cheio de ostras. Corremos em sua direção e conseguimos alcançá-lo antes que a outra onda chegasse até ele e o lançasse para ainda mais longe de nós. Conseguimos ver que o corte não havia sido tão extenso, apesar de fundo, mas ele fazia um espalhafato tão grande, e nós estávamos com tanto medo, que não conseguíamos raciocinar absolutamente nada. Apenas queríamos tirá-lo de lá. E foi o que conseguimos fazer com muito esforço, puxamos ele para mais próximo da praia, aonde as ondas estavam quebrando, e seguramos bem firme em suas mãos até que a onda bateu e retornou, nos dando alguns segundos de tempo para retomar nossa caminhada. Era água, lama, gravetos, siris, sargaços, todo isso vindo em nossa direção num redemoinho louco e incessante, que não nos deixava respirar. Fomos nos apoiando uns nos outros e vencendo metro por metro aquele imenso pesadelo que se transformou a nossa linda aventura. Já passava de meio dia, e achávamos que iriamos sucumbir, quando avistamos a areia branca no final do mangue a uns dez metros de nós, e nossas forças foram renovadas. Reunimos todo o resto de nossas energias para vencer aquele timo trecho e caímos, sujos, cortados e extenuados na límpida areia branca que tranquila nos aguardava, como se nada houvesse acontecido.

Ficamos ali deitados por um curto intervalo de tempo, pois o sol estava muito quente e meu irmão mais novo reclamava de fome. Levantamos, pegamos em sua mão e fizemos ele nos prometer que nunca, nunca contaria aquilo a ninguém! Ele fez solenemente uma cruz com os dedos, apesar de não sermos católicos, e a levou a boca, beijando-a e dizendo que jurava por Deus e por nossa mãe. Seguimos nosso caminho de volta e vimos que não podíamos entrar no mar para nos limpar, porquê ele já estava muito cheio, então fomos direto para casa, orando muito para a nossa irmã mais velha não nos encontrar no caminho. Infelizmente, Deus já havia nos atendido muito naquela manhã e a primeira pessoa que apareceu no oitão da casa, por onde decidimos entrar, para não chamar a atenção de ninguém, foi justamente ela, Ouvimos de seus lábios um aflito: — Meu Deus!! E conseguimos ver o horror estampado em seu rosto. Claro que ela já sabia o que havíamos feito, mas perguntou incrédula, só para se certificar de que era mesmo um pesadelo: — Vocês foram pro Arrombado sozinhos?? De olhos baixos, balançamos veementemente a cabeça assinalando que não!! Mas nosso irmão caçula, aquele que havia acabado de jurar segredo, tão solenemente, soltou-se de nossas mãos e correu para ela gritando: — A gente foi sim, e eu QUAXE MÓRRO! Eu sou uma quinhança!! Ela o puxou pelo cabelo e perguntou: — Se você é uma criança, por que topou entrar numa loucura dessas? E lançando um olhar de fogo sobre nós três vociferou tão alto que chamou atenção da rua inteira: — Vocês podiam estar mortos agora! Os três! Mortos! entenderam? A única explicação para estarem vivos, é que Deus existe!! Foi um grito tão feroz e doido que ela retirou de fundo de sua alma, que mais parecia um pedido de perdão, que um aviso de castigo, uma manifestação de raiva. Nossa irmã nos recolheu, deu banho, alimentou, tratou nossas feridas e nos colocou de castigo no quarto, até nossa mãe voltar da igreja e decidir o que iria fazer conosco. Foi a tarde mais dura e longa de nossas vidas, pois a ameaça era de retornarmos imediatamente para Recife. E isso serviria de castigo também, para os nossos irmãos mais velhos, uma vez que não se preocuparam em cuidar de nós. Eles estavam todos arrasados, olhos baixos e tristes, pois tinham plena consciência do perigo pelo qual nós havíamos passado. Nossa mãe era chamada entre nós, de Maria Bondade, pois tinha sempre uma palavra de doçura e um gesto de carinho. Sua compreensão não tinha limites. Penso que uma pessoa precisa ficar assim, para poder criar uma família de dez filhos. Depois de ouvir toda a nossa história, se emocionar várias vezes com os relatos das angustias que passamos para garantir a segurança do pequeno, ela decidiu que não iriamos retornar a Recife, mas passaríamos o resto da semana sem ir na vila. Além de ficarmos proibidos, de colocar os pés no Arrombado até o final do verão. Como de esperado, o castigo se estendeu aos mais velhos, que é claro, realizaram toda sorte de Peri pérsias para burlá-lo. A notícia de nossa aventura se espalhou e tomou todo o vilarejo, as pessoas mais velhas se benziam só de ouvir falar no que nós fizemos. Nossa louca bravura foi assunto do verão inteiro nas conversas da calçada da igreja. Em nossa casa a brincadeira correu solta e sempre que o mais novo reclamava de alguma coisa, tinha sempre alguém para imitá-lo e dizer: — Deixa o bichinho, ele é só uma quinhança!! Ou quando acontecia algo mais sério, as pessoas colocavam as mãos no peito e exclamavam: — Aff, eu quaxi mórro!! E todos rompiam em grande gargalhada, inclusive o caçula. Não lembro de ter voltado ao Arrombado em outras ocasiões de minha vida, lembro apenas que, o que vivi naquele lugar me marcou indelevelmente, para o resto de minha trajetória e me ensinou lições preciosas, das quais, eu faço uso até hoje.


Magali Ribeiro

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